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Museologia

22/03/2018

Museus e tecnologias digitais: desafios de uma relação necessária

Em artigo, museóloga Juliana Monteiro fala sobre os desafios da implementação da tecnologia nos museus.

Museus e tecnologias digitais: desafios de uma relação necessária

Juliana Monteiro¹

Recentemente, um jornal de grande circulação de São Paulo publicou uma reportagem² sobre o uso de tecnologia digital pelos museus e centros culturais da cidade para atrair e entreter público. A equipe de reportagem visitou dezesseis dessas instituições, permitindo avaliar, do ponto de vista do visitante, dos recursos digitais disponíveis.

A partir dos dados levantados nas visitas, foi possível compreender que, em determinados casos, as instituições possuem desde exposições de longa duração baseadas no uso de tecnologia digital para facilitar a compreensão de conteúdos, até aplicativos e audioguias disponibilizados para tornar a experiência de visitação mais interessante, ou, até mesmo viabilizá-la para estrangeiros ou para pessoas cegas. Além do destaque dos recursos citados, a reportagem chama a atenção para a presença (ou não) dos museus e centros culturais em projetos que visam disponibilizar imagens das suas coleções na web, facilitando o acesso remoto aos bens culturais, como o Google Art Project.

Apesar destes bons exemplos, é possível dizer que o cenário geral ainda é bastante diverso. Quase um território virgem, se considerarmos as inúmeras possibilidades que as tecnologias de informação e comunicação podem oferecer e que ainda não foram devidamente exploradas pelos museus e centros culturais. E neste ponto podemos nos deter no porquê de tal cenário.

Um dos entrevistados, durante a reportagem, declarou que há falta de investimentos. O mesmo dado é trazido por uma pesquisa³ realizada em 2016 pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.Br) e pelo Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.Br) e publicada em 2017 sobre o uso de tecnologias de informação e comunicação por museus, arquivos, bibliotecas, cinemas e teatros. Além da falta de investimento, as instituições indicaram também ausência de equipe qualificada. Podemos acrescer aqui um terceiro fator, mais sutil, e que talvez seja desdobramento direto dos outros dois: a falta de maior conhecimento do que significa navegar pelas águas digitais em prol do acesso aos bens culturais e de mais diálogo com públicos diversos.

Comecemos, então, pelo fator número 1: a falta de investimento. Podemos compreender que museus e centros culturais têm mesmo sérias dificuldades para angariar fundos e investi-los em projetos focados no ambiente digital. Logo, se as instituições precisarem escolher entre consertar um vazamento no banheiro de visitantes ou mesmo pagar os salários de seus funcionários com o recurso limitado que recebem, é bem provável que façam exatamente uma das duas coisas e não aloquem o dinheiro para criar um site, por exemplo.

Agora, vamos ao fator número 2: a ausência de equipe qualificada. Podemos entender a ausência de duas formas. A primeira, tem a ver com a formação de muitos de nossos profissionais que atuam em instituições colecionadoras, como museus, arquivos e bibliotecas. Se analisarmos as matrizes curriculares dos cursos de graduação – por exemplo, de Museologia –, perceberemos que muitos deles não possuem disciplinas dedicadas a debater de forma concreta os desafios do universo digital para a gestão e acesso aos acervos.

A partir disso, podemos dizer que muitos dos profissionais que atuam em instituições culturais de memória são preparados para lidar com a preservação e controle físicos das coleções. Tal preparação continua sendo muito importante, embora lacunar no que se refere ao tratamento e difusão de coleções usando outros métodos ou ferramentas digitais.

A falta de conhecimento, nosso terceiro fator, merece ser introduzido aqui. A incompreensão de ferramentas básicas, dos propósitos das plataformas e de seu modo de funcionamento pode levar muitos dos profissionais a colocar o universo digital como algo restrito a especialistas da área de informática ou tecnologia da informação. Porém, um analista de sistemas ou programador precisará trabalhar de maneira próxima com os técnicos que lidam com os bens culturais, para entender qual é a demanda em pauta. Os profissionais da área cultural, por sua vez, precisarão se adaptar e aprender a dialogar com esses profissionais.

Nesse sentido, vale ressaltar que o universo digital é híbrido em muitos níveis e que os profissionais da contemporaneidade precisam se acostumar a essa realidade – mesmo que sua formação inicial não tenha lhe fornecido todos os subsídios para trabalhar com ela. E, se possível, devem procurar se tornar híbridos também, caso haja interesse ou necessidade.

Portanto, não seria irrelevante dizer que, se tais instituições quiserem impactar públicos além daqueles que já lhes são fiéis, é necessário que pensem fora da caixa e para além das dificuldades financeiras e de equipe, que sempre existirão – visando soluções criativas e de baixo custo. Afinal, o digital veio para ficar e cabe a nós entender o que dele pode ser adequado para tornar nossos museus e instituições culturais de memória mais interessantes e presentes no dia a dia das pessoas.

 


¹ Museóloga pela UFBA e mestra em Ciência da Informação pela USP. Professora no curso técnico de Museologia/ETEC Parque da Juventude. Consultora independente. Colaboradora voluntária do grupo Wiki Educação Brasil.

² Ver: https://guia.folha.uol.com.br/passeios/2018/03/museus-de-sao-paulo-apostam-em-tecnologia-para-atrair-e-entreter-publico.shtml. Acesso: 12/03/2018

 




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