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01/12/2014

Explorando a reserva técnica do jornalismo

A jornalista Janaina Garcia, aluna do curso de pós-graduação em Mídia, Política e Sociedade da FESPSP , aponta em neste artigo um exemplo de como a grande mídia manipula a informação a favor de um projeto político contra outro.

A jornalista Janaina Garcia, aluna do curso de pós-graduação em Mídia, Política e Sociedade da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), aponta neste artigo um exemplo de como a grande mídia manipula a informação a favor de um projeto político contra outro.

Explorando a reserva técnica do jornalismo

Por Janaina Garcia

Aparecida do Norte, Vale do Paraíba, dia 16 de setembro de 2014. Em um hotel nas proximidades do Santuário Nacional, militantes petistas com camisetas, bandeiras e faixas do partido interrompem abruptamente a cantoria do jingle 'Coração Valente', da candidata à reeleição Dilma Rousseff, ao ser chamados a comparecer a uma reunião privada nos fundos do estabelecimento. 'Ele vai falar', me responde uma militante sem saber que sou jornalista -- acidentalmente hospedada ali também, mas jornalista.

Diante de alguns poucos olhares entre curiosos e desconfiados, escolho uma cadeira em um canto e me ponho a ouvir a pocket-palestra. 'Ele', ao contrário do que cheguei a ouvir no trajeto da rua até lá, não era o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Era outro presidente: o do próprio partido, o deputado estadual paulista Rui Falcão.

A poucos dias do primeiro turno eleitoral e com um cenário ainda com Marina Silva (PSB) em vantagem sobre um agora terceiro colocado Aécio Neves (PSDB), Falcão conclama a militância a reforçar a campanha nas ruas. Sobretudo porque, considerara, 'o maior adversário da presidente Dilma está forte todos os dias: a mídia'.

Dilma venceria o segundo turno no dia 26 daquele mesmo mês, mas não sem amargar uma acachapante derrota de dois terços a um, para o candidato tucano, no Estado mais populoso da nação, São Paulo. Estado que vivia a maior seca dos últimos 70 a 80 anos, mas que sabia pelo menos desde 2009, graças a intelectuais de suas próprias universidades públicas, que seus principais reservatórios caminhavam para um colapso nos anos subjacentes caso obras e ações pelo reuso da água não fossem implementadas.

Importante destacar que, entre a vitória de Dilma no dia 26 e a reunião de Falcão com a militância – reunião, aliás, realizada horas antes de um debate promovido em Aparecida, com os presidenciáveis, por ação da CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil) –, o governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB) seria reeleito em primeiro turno com avassaladores 57% dos votos válidos.

Voltaria a chover na capital e região metropolitana em novembro – nada, porém, capaz de repor sequer as perdas do volume morto (nome pouco marqueteiro para 'reserva técnica') do sistema Cantareira, o maior do Estado.

*

Brasília, capital federal, Palácio do Planalto. Incríveis 60 minutos de conversa/negociação política são suficientes para o consenso que viraria, de imediato, manchetes dos portais de notícias e, no dia seguinte, dos principais jornais do País: São Paulo pedira R$ 3,5 bilhões para oito obras que combateriam a crise hídrica, com grandes chances de liberação por parte do governo federal.

Depois de ouvir reações de choque ao volume necessário de recursos solicitados e à quantidade de obras necessárias, até o mais leigo em finanças, política ou mesmo em gestão de crises consideraria aviltante o tempo de conversa para se chegar ao 'acordo'. Não é possível que em 60 minutos se decidam valores que afetarão, direta ou indiretamente, uma população de 40 milhões de pessoas. Ao menos, não com a facilidade que os veículos demonstraram, tamanha a factualidade, crua, simples e inexplorada da notícia.

Lembrei então da frase do presidente nacional do PT à militância: o maior adversário de Dilma seria a mídia. A grande mídia, ele salientou. Se considerada a cobertura quase que diária que o governo de São Paulo tem de seus principais veículos de imprensa, difícil não dar razão ao petista; afinal, não é da noite para o dia, ou de outubro para novembro, muito menos em 60 ou 180 minutos de conversa que se descobre a necessidade de um recurso dessa monta para dar cabo de um problema tão grave. Problema que, por sinal, implica não apenas em mudança de atitudes do consumidor (um eterno responsabilizado pelo agente público em não se economizar), mas em riscos sérios à saúde pública.

A cobertura baseada quase que tão somente na escassez de chuvas (mote muitas vezes adornado nos VTs quase que comportamentais nas emissoras de TV como 'culpa de São Pedro') nos meses e dias seguintes à eleição, com raras exceções de fato críticas, dá sentido à opinião dos partidários de Dilma. Mas não só: tal atitude serviu para externar o quanto o jornalismo de 'comunidade', voltado à classe C, nos últimos anos, ainda tem que suar a camisa (e suar bem mais que uma reserva técnica) para fazer dar algum sentido ao nome – 'comum unidade', sobretudo – e não para expressar a fala dominante que, no fim das contas (e que contas), representa uma maioria que sequer delegou procuração para tal.

Palavra-chave: Grande mídia. Comportamento Político e Opinião Pública – FESPSP. Orientadora: Jacqueline Quaresemin. Crise hídrica em São Paulo.

Janaina Garcia, 34 anos, é aluna do curso de pós-graduação em Mídia, Política e Sociedade da FESPSP. Formada pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), é atualmente repórter do portal Terra Networks e já atuou em outras redações de webjornalismo, além de impresso, rádio e TV.

 




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