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Artigo Assinado

08/03/2017

Em defesa da igualdade também entre as mulheres: Convertendo privilégios em instrumentos de luta

Profa. Dra. Caroline Cotta de Mello Freitas, da FESPSP, escreve artigo sobre a necessidade de união entre todas as mulheres.

Drª. Caroline Cotta de Mello Freitas

Pensei em escrever um texto citando estatísticas, que, aliás, apareceram aos borbotões nos últimos dias, que revelam as desigualdades de gênero e raça no que diz respeito a trabalho e renda (dados do IPEA baseados nas séries históricas da PNAD - IBGE de 2015); ou das que tratam da violência contra mulheres, sejam cisgênero ou transgênero (dados disponíveis no Mapa da Violência.org.com e no Transgender Europe [http://tgeu.org/]); ou dos dados que dão conta que o desmonte da previdência proposto pelo governo Temer afetará mais às mulheres, em especial as negras. Também pensei que poderia escrever sobre a história do 08 de março, dos cem anos da greve de operárias russas que, em 1917, foi um pontapé para a Revolução Russa; ou o modo como a data se tornou relevante ao redor do mundo.

As informações e estatísticas nos permitem demonstrar que o machismo é estrutural, e em conjunto com o racismo e o capitalismo, constitui um sistema que oprime e mata. As feministas negras, em especial Audre Lorde, nos ensinam que não existe “hierarquia de opressão”; as opressões devem ser pensadas em suas articulações e não em separado. E é por causa disso que proponho refletirmos sobre duas intersecções, ou marcadores sociais da diferença, que são pouco mencionados: aqueles que separam mulheres heterossexuais e lésbicas e os que distinguem mulheres cisgênero (quando a identidade de gênero coincide com o sexo biológico designado ao nascer) e mulheres transgênero (quando a identidade de gênero não coincide com o sexo biológico designado ao nascer).

Pensemos nas desigualdades, no que tange a trabalho e renda, que acometem mulheres lésbicas, trans, travestis, negras, indígenas, periféricas ou que vivem no campo, nas violências a que estão sujeitas, no que significa para elas os parcos direitos sociais garantidos pelo Estado brasileiro desaparecerem. Aliás, quais mulheres têm acesso a algum destes parcos direitos?

Sou uma mulher cis branca, de classe média, em que pese o machismo que já enfrentei e enfrento por ser mulher, acredito que eu e toda mulher branca de classe média devemos reconhecer que numa sociedade preconceituosa e desigual como a brasileira, temos privilégios em relação às mulheres negras, indígenas, refugiadas, imigrantes, assim como em relação às mulheres trans e travestis. Admitir privilégios não significa afirmar que não enfrentamos uma sociedade machista e misógina, que não lutamos para sobreviver todos os dias; mas reconhecer que existem mulheres que enfrentam dificuldades que não experimentamos e que é por isso que nossa voz deve se juntar às delas, porque temos acesso a espaços que elas não têm, porque tivemos oportunidades que lhes foram e são negadas cotidianamente. Esta é uma das razões pelas quais nós, mulheres brancas de classe média, devemos ouvir o que dizem as mulheres negras e indígenas, por exemplo, devemos entender que nossas vidas não são iguais, que não vivemos as mesmas opressões, e que estas diferenças não podem ser apagadas, porque elas estão marcadas na pele de mulheres negras e indígenas. É por isso que a luta feminista tem que ser também antirracista e anticapitalista!

Que em 08 de março de 2017, dia para o qual foi convocada uma mobilização de mulheres em escala global, em que mulheres de mais de 45 países se organizam localmente em prol da luta pela defesa dos direitos das mulheres e da igualdade, que nós sejamos capazes de admitir nossos privilégios e de lutar lado a lado com TODAS as mulheres.

Sobre Drª. Caroline Cotta de Mello Freitas
Graduada em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (2000), mestre em Ciência Social (Antropologia Social) pela Universidade de São Paulo (2004), doutora em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (2013). Atualmente é professora Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo - FESPSP. Tem experiência na área de Antropologia, com ênfase em Nação, Nacionalismo, Memória, Identidade, Diversidade Cultural, atuando principalmente nos seguintes temas: nação, nacionalismo, identidade, etnicidade, América Latina, Bolívia, memória, imigração, relações raciais, relações inter-étnicas e transformações sócio-culturais.




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