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#SeminarioFESPSP

06/10/2017

Diversidade corporativa: as incertezas do trabalho sempre existiram para as populações vulneráveis

Última reunião da Cicla das 5, no Seminário FESPSP 2017, discute preconceito e heteronormatividade no ambiente corporativo.

A falta de diversidade na cultura corporativa, que leva à opressão e à exclusão de populações vulneráveis que fogem da heteronormatividade, foi o tema discutido durante a última reunião da Cicla das 5, no Seminário FESPSP 2017, que discutiu As Incertezas do Trabalho. O encontro aconteceu na quinta-feira, 5 de outubro. A mesa, composta por Natacha Barros (Panosocial), Dan (InfoPreta), Luana Torres, Ariel Nobre e Gustavo Bonfiglioli (Pajubá Diversidade em Rede) e Magô Tonhon (mestranda em Estudos Culturais, USP), com mediação da Profa. Dra. Caroline Cotta de Mello Freitas (FESPSP). A existência de uma cartilha rígida de como se portar nos espaços de trabalho que difere da cultura de grupos minorizados foi apontada pela mesa, que se propôs a pensar as estruturas de poder da cultura corporativa, e em como as pessoas desviantes podem empreender para desconstruir e ressignificar seus códigos, normatizações e vigílias.

O apoio midiático às reivindicações do movimento LGBTQ+ foi destacado na fala de Magô: “Quando penso nesse boom que aconteceu de maneira história do ponto de vista das nossas reivindicações, penso também nas invasões do mercado nas nossas pautas. Não basta fazer propaganda sobre nós, precisamos de empresas e corporações comprometidas com o olhar cultural voltado para dentro”, explica, acrescentando que alguma estratégias podem ser exercitadas para que as extrações sejam amenas ou não aconteçam, entre elas fugir do olhar complacente e, sobretudo, tomar o cuidado de “não agradecer pelo trabalho”.

Faces do preconceito

Ariel Nobre, um dos sócios fundadores da Pajubá Diversidade em Rede, ao lado de Gustavo Bonfiglioli, contou a experiência do surgimento da empresa e do preconceito que sente nas reuniões com as empresas parceiras, por ser homem trans. “Criamos a Pajubá para pensarmos a diversidade de uma forma estrutural. Trabalhamos para que seja possível a firma ser um espaço possível para múltiplas diversidades”, explica, contando que a metodologia para lidar com as diversidades é contar com uma rede que auxilia nessa compreensão.

O preconceito com o Ariel ocorre quando as empresas parceiras manifestam preferência em tratar com o seu sócio, Gustavo. “Nosso desafio agora é lidar com essa diferença e desigualdade interna em como nossos clientes e parceiros nas empresas, todos cisgêneros, tratam de maneira diferente a mim e ao Gustavo. É um desafio emocional lidar com essa desigualdade, mas a gente cresce muito em cima disso”, acrescenta.

A empresa tem como objetivo beneficiar e ajudar cada vez mais a comunidade do LGBTQ+, explica Gustavo Bonfiglioli. “Principalmente neste momento de desmonte das políticas públicas para os nossos corpos, que estávamos começando a ter, mas perdemos agora”, destaca.

Dan, da InfoPreta, conta que sempre foi questionada pela mãe quando assumiu sua sexualidade: “você não está em dúvida?”. Ela explica que o preconceito e a homofobia sempre vem de formas diferentes:

“Para que eu pudesse me encaixar foi muito difícil. Sempre fui assediada por homens, por ter um corpo feminino. As pessoas não aceitavam meu cabelo. Quando eu trabalhava em um cartório, que é um local fechado, impositivo, eu me sentia aprisionada e sufocada naquele espaço. Forçada a assumir a minha identidade, fui obrigada a me impor, por mais que eu não goste disso”, relata.

A InfoPreta nasceu porque a noiva de Dan, Buh, não tinha oportunidade de trabalho no mercado e precisava sobreviver. Elas então se uniram para criar a primeira empresa no mundo formada integralmente por mulheres negras minoritárias, precursora da diversidade no mundo digital. “As pessoas romantizam muito isso de ‘luta pelo emprego’, a gente só quer trabalhar”.

Em sua fala, Natacha Barros, da Panosocial, começou lembrando que as ditas ‘minorias’ são a maioria. A Panosocial é uma empresa de moda que promove a ressocialização de ex-detentos empregando-os na produção de roupas, utilizando matéria-prima ecológica e processos produtivos sustentáveis. A história do surgimento da empresa está intrinsecamente ligada à história da empresária. Herdeira de uma grande empresa, vinda de família de extrema direita, ex-mulher de um CEO importante, Natacha foi morar na Zona Leste de São Paulo, com o seu segundo companheiro e pai do seu filho.

Em um primeiro momento, sentiu preconceito não apenas da sua família, que não a levava a sério, como também da família do seu parceiro, que a taxava de “patricinha”. Essa mudança repentina de realidade, a levou a precisar de adaptar rapidamente, aprender a pegar ônibus, viver com pouco dinheiro. Em seu terceiro casamento, ela já estava trabalhando com moda quando foi levada a unidades prisionais e encarou a realidade dessa população, na mesma época, soube melhor do impacto da indústria da moda no meio ambiente, na destruição da causa. Assim nasceu a Panosocial. “A sociedade paga violência com vingança, precisamos quebrar isso. Engraçado que a empresa dos meus pais trabalha no ramo de segurança e hoje eu trabalho com ex-detentos”, define, ao pensar nas mudanças pelas quais a sua vida passou.

Medo social

Membro do coletivo A Revolta da Lâmpada, um dos organizadores dessa edição da Cicla das 5, Luana Torres contou um pouco da sua experiência em um banco público, de acesso através de concursos. “As pessoas buscam cada vez mais trabalhar como PJs por falta de opção ou para tentar fugir do capital. Porém, dentro do banco pude ver que empresas geridas por mulheres ou LGBT eram sabotadas para conseguir recursos. Eu fazia essa ponte, e percebi que as pessoas PJ não podiam chegar ao outro lado por razões preconceituosas, preconceito que eu também podia sofrer”, relata. Neste momento, ela foi trabalhar no departamento de equidade de gênero no banco, “onde a maioria eram homens cisgêneros e só uma pessoa negra”.

Ela também conta que as pessoas LGBTQ+ que trabalhavam no banco não queriam se impor, apesar da estabilidade que um cargo concursado traz. “Pude perceber que era um medo social. Essas pessoas, muitas delas, sentem que chegaram ao máximo e que não vão crescer. Por mais que não haja a tensão real da empresa demitir, as pessoas tem esse medo. Com as pessoas trans é ainda mais complicado”, explica, acrescentando que a luta da militância permitiu a conquista de alguns direitos, apesar de óbvios, como a identidade social. “O medo que sentimos aqui fora, das agressões por exemplo, está entrando nas empresas também. Mesmo em uma empresa com acesso por concurso público. Imagino o cenário em empresas particulares. Peço para que, em qualquer empresa que você entrar, se imponha. Não participe desse tipo de piada, ainda que você não faça parte dessa população, mas principalmente pra quem é, é uma força que precisa vir de fora”, finaliza.

 

CICLA das 5

TRABALHO E CORPOS VULNERÁVEIS: A FIRMA IMITA A SOCIEDADE

O Ciclo das 5 de 2017 pensou como o mercado de trabalho reflete as estruturas de opressão e hierarquização de corpos impostas na sociedade. Todas as mesas foram interseccionais, com recortes de raça, classe, gênero, sexualidade, idade e status de HIV. Mesa a mesa, a Cicla discutirá a relação de cada um desses recortes com quatro macro-temas contemporâneos sobre o universo trabalhista brasileiro: ACESSO, DIREITOS, ASSÉDIO e DIVERSIDADE CORPORATIVA.

Conheça a programação completa da Cicla das 5




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